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Madalena Proença

37 anos, gestora de produto na área de engenharia biomédica

Amarei o próximo como a mim mesma?  

Sou a Madalena, cristã, casada e mãe de 2 filhos. Fui convidada há tempos pela minha irmã Teresa (uma das fundadoras do Sopro e parte integrante da equipa da sua coordenação) para escrever um testemunho. Convite este que recebi e aceitei com muita alegria. 

Acredito bastante neste projecto e no propósito que faz mover toda esta organização. É um movimento que me inspira por ser, verdadeiramente, feito “de e para pessoas”. Para muitos este último ponto pode parecer uma constatação óbvia ou desprovida de nexo, mas para mim não é nada óbvio e por isso faço questão de realçar o “de e para pessoas”. Até então não tinha conhecimento de uma organização que acarinhasse temas tão estruturantes como a sexualidade humana e que se ocupasse de tantas outras pessoas que vivem anos (talvez uma vida) em fronteiras onde há tanto sofrimento, solidão, incompreensão e falta de amor. Fronteiras estas criadas e alimentadas por nós diariamente, nas mais pequeninas ações do dia-a-dia para com o nosso próximo, e até mesmo para connosco. Fico muito feliz por saber que muitos de nós (cada vez mais) se fazem alimento para tantos outros esquecidos, rejeitados e ignorados pela sua diferença. Somos todos diferentes e todos (sem excepção), por sermos tão humanos, somos tão sensíveis e reactivos a todas estas diferenças entre nós. Diferentes formas de amar, de estar, de pensar, de agir, de ser, de se mover, de se vestir, de me conectar e até de comer, por vezes (muitas vezes) geram barreiras (duras e dolorosas). Acho que só mesmo através do Amor que é (também) essência em cada um de nós, é que é possível fazermos pontes e estradas e vias de comunicação entre todas estas partes humanas, que habitam em nós.  

Quando me deparo com perguntas básicas (que eu própria sinto em mim) sobre preconceito, inclusão e aceitação do outro, ou até com as mais complexas como “Amarei eu o próximo como a mim mesma?”, quase sempre acabo na mesma resposta - acho que não! Há muitas coisas que me transcendem. Coisas que não compreendo, outras que não aceito, outras que questiono, outras que rotulo. Há coisas em mim que espelho nos outros e outras que se espelham em mim e que me doem. Porém, não desisto de encontrar uma outra resposta (sincera e sentida) que um dia me deixe mais verdadeiramente feliz e realizada. Sinto-me todos os dias a ser criada e moldada (espero que nas mãos de Deus) para ser cada vez mais Amor a um próximo, que por algum motivo eu exclua porque estou limitada e cheia de fronteiras internas. E atenção, nem sequer estou a falar de questões fracturantes, como aquelas às quais a Sopro responde, mas de tantas outras banais que se geram em nós e nas nossas relações humanas.    

Com este testemunho quero apenas partilhar o que a minha experiência pessoal me tem mostrado e onde acho que pode estar a génese de tantos abismos entre todos nós. As grandes fronteiras e o preconceito começam no interior de cada um de nós. Há fronteiras e fragmentos dentro de nós que se manifestam fora de nós e que se espelham no outro e isto é impeditivo de Amor e de acolhimento - de um outro que é diferente de mim.  

 

O coração não engana 

 

Talvez por ter isto presente em mim e de saber-me também (humildemente) limitada, mas com uma vontade imensa de amar, eu tenha escolhido acompanhar, acolher, aceitar e respeitar a relação homossexual da minha irmã Teresa, bem como os seus desejos e propósitos de vida, com a naturalidade própria do amor. Acompanhei (e acompanho) a vida da minha irmã e da sua mulher (de quem eu gosto muito – mesmo!) e torço muito por esta família que se está a construir e a moldar nas mãos de Deus. As duas são um exemplo muito importante e inspirador para mim, na sua relação e na sua individualidade. 

Assisti, há uns anos, bem de perto ao sofrimento da minha irmã e da sua fragmentação interna (relacionada com a sua sexualidade). Durante este acompanhamento optei por deixar o meu coração comandar mais do que a cabeça, pois o coração não se deixa enganar (ao contrário do que muitos dizem) – ama, sofre, tem compaixão, é empático, compreende e só deseja e luta para que tudo passe e que os pedacinhos se voltem a unir. A cabeça, porém, é confusa, complica muito, faz imensas perguntas, julga, proclama verdades (sem sentido) é preconceituosa, é uma chata (muitas das vezes). É possivelmente uma das grandes responsáveis pelas fronteiras e abismos que por vezes se criam entre as pessoas. Não querendo ser injusta, pois de muito nos vale a nossa cabeça. Mas precisamos tanto do coração! 

Sinto que só consigo acompanhar a Teresa desta forma pois acredito que é Deus a falar em mim. Tenho fé neste Deus que nos cria a cada segundo da nossa vida e que nos ama assim, com todos os pedacinhos unidos que se fragmentam de vez em quando e que se unem de novo pelo Seu amor em nós e através de nós.  

Resta-me suspirar e dizer - Quem me dera conseguir dar sempre ouvidos a esta voz interior vinda de Deus! Principalmente para as questões mais pequenas do dia-a-dia e na gestão de tantas outras relações que tenho (principalmente as mais difíceis).  

Talvez quando assim for - e eu permita um estado permanente de Deus em mim - eu tenha encontrado a resposta (a mais sincera e feliz) a todas as minhas perguntas sobre as nossas diferenças humanas. Talvez nesse dia consiga dizer que SIM! Amo verdadeiramente o outro na sua individualidade e diferença. “Estou a caminho…"